
“Eu sempre fui um angoleiro”
Uma das mais interessantes entrevistas do mestre Paulo dos Anjos foi concedida, em 1995, ao periódico “Capoeirando”, da Universidade Estadual Paulista (Unicamp), de Campinas.
Capoeirando: Como ocorreu sua intimidade com a Capoeira?
Mestre Paulo dos Anjos: Aprendi com o mestre Canjiquinha e participava das rodas na academia do mestre Pastinha. Convivi com o mestre Gato Preto, ensinei com ele na Bahia e também ensinei muito tempo na academia dele, em São Paulo.
Cap.: Por que trocou a Bahia por São Paulo, na década de 70?
Paulo dos Anjos: A situação estava ruim para mim, numa época de maré sem peixe e um aluno — que treinava boxe comigo e sabia que eu jogava Capoeira — me convidou para ir para São Paulo, e eu fui.
Cap.: Continua ainda com suas aulas de Capoeira, em Salvador?
Paulo dos Anjos: Eu tenho a Associação de Capoeira Angola, mas são os alunos que dão as aulas. Eu dou aula no Salão Paroquial da Paz e alguns cursos fora da Bahia.
Cap.: Pela sua vivência, acha que a Capoeira está mudando?
Paulo dos Anjos: Para mim, nada mudou. Eu continuo fazendo a Capoeira Angola conforme a tradição. Eu sempre fui um angoleiro. Nem discuto a Regional porque não conheço, nem entendo. Se eu não entendo, não tenho que dar uma de entendedor!
Cap.: E como é essa questão da tradição?
Paulo dos Anjos: Tem que ter um cara mais velho do que eu para explicar.
Cap.: A tradição incluía o uso da navalha?
Paulo dos Anjos: Sempre teve gaiato, desordeiro com navalha. Safado, nunca deixou de ter (na Capoeira), mas uma coisa existia e parece que não existe mais: o respeito. Agora, tem moleque de vinte anos que, só porque dá um bocado de pulos, desafia o mestre e chama para brigar!
Cap.: Por que não se joga mais com navalha?
Paulo dos Anjos: Porque nunca se jogou Capoeira com navalha. Botar (navalha) no pé para jogar? Isso é mentira. É só exibição! É só show!
Cap.: Mesmo na antiga capoeira de rua não tinha navalha?
Paulo dos Anjos: Tinha, mas era no bolso do capoeirista. Para botar no pé e sair cortando, é mentira. Tem gente boa por aí que, se você pegar uma faca na mão e não for macho mesmo, ele toma a faca e ainda bate em você. Imagine por navalha no pé para sair cortando todo mundo! Isso é fantasia para enganar criança boba!
Paulo dos Anjos: Tinha, mas era no bolso do capoeirista. Para botar no pé e sair cortando, é mentira. Tem gente boa por aí que, se você pegar uma faca na mão e não for macho mesmo, ele toma a faca e ainda bate em você. Imagine por navalha no pé para sair cortando todo mundo! Isso é fantasia para enganar criança boba!

